#Bahia: “Caiu na minha frente”: em um minuto, chuva derrubou 34 casas em Guaratinga

 


A conta dava 16 tarefas, o que equivale a 69 mil m². Esse era o tamanho da terra do agricultor João Batista Santos, 57. Há exatamente um ano, ele trocou suas 16 tarefas por uma casa na beira do rio Buranhém, em Guaratinga, no extremo sul da Bahia. Bastou um instante para que João ficasse sem a terra e sem a casa, posta abruptamente no chão pela força da água. “Tudo que eu tinha foi embora, tudo. E faltou isso aqui pra eu morrer”, afirma ele, juntando as pontas do polegar e do indicador. “Dei socorro a minha mulher, que desmaiou. Aí fui entrar pra tirar as coisas. Quando pisei no batente, ouvi o estalo. Foi o tempo de dar um passo pra trás e a casa caiu na minha frente.

Reduzida a escombros, a casa de João ficava na rua Beira Rio, no distrito de São João do Sul, 24 quilômetros distante do centro de Guaratinga, via estrada de terra. Próximo à divisa com Minas Gerais, o povoado de 2.000 moradores está no perímetro mais devastado pelos temporais causados pelo ciclone extratropical que atingiu Minas e Bahia

Ali, quando o Buranhém subiu sem controle na quinta-feira (9), 34 casas desabaram, restando delas apenas as lembranças de quem as habitava. Felizmente, não houve mortes. Segundo a assistência social do município, outras dez casas estão condenadas. Depois de serem invadidos pela água, os imóveis que resistiram ainda estão sendo limpos pelos moradores


Mas, assim como João, outras 88 pessoas não têm mais casa para limpar. Vivem hoje espalhadas por três escolas municipais e uma creche do distrito, fazendo das salas de aula o abrigo possível. Junto com a esposa, João ocupou uma sala na Escola Rural de São João do Sul, que estava desativada. Ali, praticamente só as roupas e panelas já eram suas antes da tragédia. A cama e o armário foram doados; geladeira, fogão e colchão, emprestados. “Deu tempo nem de pegar a cesta básica que eu tinha comprado”, lamenta o agricultor, contendo as lágrimas ao dizer que não tem qualquer condição de fazer outra casa. É o drama que se repete na porta ao lado, onde Silvana Miranda, 39, está alojada

 Creche abriga famílias

Na creche Anjinho da Guarda, os berços usados no dia a dia agora servem de guarda-roupa improvisados. Ali, mais seis famílias se organizam como podem, revezando entre a limpeza dos espaços, o cuidado com as crianças e o carregamento de baldes quando chega o carro-pipa – a subida violenta do Buranhém danificou a bomba e a tubulação do sistema de abastecimento do distrito, que captava água no rio. O revezamento ajuda também no apoio a João dos Santos, 52, que tem quase o mesmo nome e, assim como o João do início desta reportagem, teve sua casa destruída pela enchente. Com a mobilidade limitada por um bico de papagaio — nome popular da osteofitose, enfermidade que gera dor nas costas e membros e pode causar contratura muscular —, João passa quase todo o dia deitado. “Eu preciso de ajuda pra levantar, sentar na cadeira de rodas, ir ao banheiro. Sem ajuda, não consigo.” Em casa, ele pagava uma cuidadora, com dinheiro da aposentadoria. Alojado na Anjinho da Guarda, vale-se da solidariedade de quem está na mesma situação. “Como é que não ajuda, moço? Todo mundo aqui tá precisando de ajuda, ele só precisa de um pouco mais. Aí a gente se ajeita, né? Vou trocando com meu marido e com o pessoal”, diz Miraildes Cruz, 34, que está na creche com os seis filhos, vivendo de doações

Todos estão sob os cuidados de Tamilly Nascimento, que há 7 meses assumiu o Cras (Centro de Referência da Assistência Social) do distrito e logo encontrou tamanho desafio. Nascida em São João do Sul, ela conhece quase todas as pessoas que perderam as casas e assumiu a tarefa como uma missão pessoal. Com uma lista em mãos, atualiza sem parar os nomes de quem está alojado nas unidades educacionais ou de quem teve o imóvel destruído, mas encontrou outro abrigo. Atualiza também o controle das roupas, calçados, cobertores, cestas básicas e itens de higiene que chegam via prefeitura ou através de doações. “É uma situação desastrosa. Estamos tentando organizar, mas é muito difícil, teve gente que perdeu tudo, tudo mesmo, casa, móveis, documentos”, pontua Tamilly, olhando atenta pela janela. Lá fora, a chuva volta a cair com alguma força, mas nada perto do que já se viu. “A chuva me preocupa. Se esse rio subir de novo?”, diz, deixando a conclusão no ar.

Outra preocupação de Tamilly é com o futuro dos alojamentos. Como o ano letivo de 2021 já estava em conclusão quando veio o desastre, foi possível levar as pessoas para as escolas. Mas, quando 2022 chegar, as crianças e adolescentes vão precisar das salas de aula. “Aqui não tem outro espaço. Não tem casa pra alugar, não tem pensão, só tem as escolas. Como é que faz?”, questiona. A assessoria de comunicação da prefeitura de Guaratinga informou que o município pretende, ainda esta semana, mapear e alugar imóveis para abrigar as famílias desalojadas, liberando assim as escolas. Ainda segundo a assessoria, o distrito vai pleitear, junto ao governo federal, a construção de casas para os desabrigados



Rua da Lama virou rua da água

Na Bahia, não há cidade que não tenha ao menos uma rua ou avenida chamada Octávio Mangabeira, político que governou o estado entre 1947 e 1951. Em São João do Sul, essa rua ganhou há muito o apelido de “Rua da Lama”, devido ao lodo que, a cada temporal, toma a via sem calçamento. Com o ciclone, a rua foi tomada por muito mais que lama. “Dava pra nadar aqui. Acordei com o pessoal gritando, umas seis da manhã. Quando fui levantar da cama, que botei o pé no chão, já pisei na água e vi os ‘trem’ tudo boiando”, lembra Epaminondas Francisco de Oliveira, 71. Parte da casa dele, comprada há quatro anos, não resistiu. O imóvel era, na verdade, a junção de dois: um feito com tijolos de adobe e outro de alvenaria — ou lajota, como chamam no povoado. Ao notar que o adobe estava se dissolvendo com tanta água, Seu Nonda, com a ajuda de vizinhos, até conseguiu transferir o que precisava para a parte mais resistente, como o estoque de 22 botijões de gás que vende. Nisso, não demorou a ouvir um estrondo. Era metade de sua casa indo ao chão

Agora, ele observa o amontoado de blocos, móveis destroçados e restos de objetos sem serventia. “Eu não ‘guentava mais trabalhar na roça. Vendi minha terra e vim pra cá. Agora olhe pra isso, o que é que eu faço?”. É o mesmo questionamento de dona Arlinda Chaves, 87, que vivia quase defronte a Nonda. Ela deixou a roça há 9 anos para viver na área mais urbanizada do distrito, tendo comprado a casa que, de uma hora pra outra, desmoronou

Quando começou a inundação, vizinhos tiraram dona Arlinda do imóvel e levaram para a casa de uma sobrinha, também na Rua da Lama. A precaução salvou sua vida. “Sobrou quase nada, meu filho. Fiquei com isso aí, ó”, diz, indicando com a cabeça umas trouxas cheias de roupa. “Mas com fé em Deus vou arrumar minha casa. Vou fazer outra

Tal otimismo ainda não chegou a Elcina Barros, 70, que caminha literalmente sobre o que restou da casa onde nasceu, cresceu e criou os oito filhos. Olhando em volta, só se distingue uma cabeceira de cama e o relógio medidor de água, tão irônico quanto trágico. Ela lembra que, no dia da tempestade, em 30 minutos a água já estava na altura do joelho. O filho Gerisnon, que já não mora no distrito, mas estava lá no momento da enchente, correu para tirar a mãe de casa. Felizmente chegou a tempo, pois o imóvel foi o primeiro da rua a sucumbir

É uma tristeza muito grande, um aperto no coração. Tô nessa casa desde pequeninha, tava caducando nessa casa, menino. Sei nem o que fazer. E agora?
Fonte: UOL Notícias 
Victor Uchôa
Colaboração para o TAB, de Guaratinga (BA)

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